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Futebol / COPA DO MUNDO

Uma ficção que nos imerge em uma realidade verdadeira

“Eu esperava um dia de trabalho muito difícil, cheio de problemas, então provavelmente não pensei em futebol ou algo parecido em nenhum momento”

Nancy Giampaolo Publicado em 11/12/2022, às 21h16

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Uma ficção que nos imerge em uma realidade verdadeira - GettyImages
Uma ficção que nos imerge em uma realidade verdadeira - GettyImages

Adormeci – talvez providencialmente – para o primeiro jogo que fizemos nesta Copa do Mundo, contra a Arábia Saudita. Quando acordei, estava tudo acabado. Quase não havia resquícios visíveis da derrota, com exceção de um vizinho que olhava bucolicamente pela janela com a camisa azul-claro e branca.

Eu esperava um dia de trabalho muito difícil, cheio de problemas, então provavelmente não pensei em futebol ou algo parecido em nenhum momento. À noite, de volta para casa, me lembrei, graças aos comentários de quem vive comigo, que tínhamos jogado e perdido e lembrei-me também, e sobretudo, da pouca importância que tinha dado ao assunto ao longo do dia.

Comecei a pensar que talvez a Copa do Mundo estivesse deixando de ser um espetáculo atraente para mim, não sou fã de futebol. Porém, nas partidas que se seguiram, eu os vi carregando o mesmo estresse de sempre, exibindo gestos pomposos de alegria ou decepção dependendo da situação, reclamando ou gritando gols até ficar rouco. Por que a Arábia Saudita passou por mim?

Poderia ser o de ‘olhos que não veem coração que não sente?’ Não sei, mas sei que no não estar presente ou no ausente, como preferir, muitas coisas se perdem e que o futebol tem muito a ver com a ficção. Como ela, requer um pacto tácito entre autor e espectador que aceita convenções, diretrizes e esquemas; eles lidam com mal-entendidos. Como ela, não afeta diretamente nosso cotidiano: não nos curará se estivermos doentes, não nos tornará ricos a menos que façamos parte do negócio, não nos dará o que nos falta ou eliminará o que, sem sucesso, pretendemos abandonar.

Messi em campo pela Argentina
Messi em campo pela Argentina (Créditos: Getty Images)

Mas como acontece com ela, a ficção, suspenderemos a lógica habitual enquanto estivermos às suas custas, entraremos como cavalos naquilo que ela propõe, nos envolveremos com um entusiasmo temerário, como se não houvesse amanhã. E como fizermos com ela, seja ela apresentada a nós na forma de um bom romance, um grande filme ou uma série cativante, sofreremos quando tivermos que sofrer, seremos medrosos, ressentidos, sedentos de vingança, sem fim sentimentos e paixões; reflexões e perguntas. Adoraremos alguns protagonistas e detestaremos outros, simpatizaremos com alguns personagens secundários e outros simplesmente esqueceremos. Como na ficção, um contador de histórias nos conduzirá como um xamã ou guia, e nós o seguiremos com a confiança de uma criança. Se vencermos no final da história, como aconteceu nos últimos quatro jogos, fazemos da ficção a nossa realidade mais verdadeira.

*Texto traduzido do site Perfil Argentina. 


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