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A história dos Jogos Olímpicos: Berlim 1936

Para entrar no clima de Tokyo, conheça um pouco da história de edições passadas das Olimpíadas

Eduardo Colli Publicado em 19/07/2021, às 10h01

Anéis olímpicos - Getty Images
Anéis olímpicos - Getty Images

1936 – XI Jogos Olímpicos – Berlim - Alemanha

Abertura: 01.ago.1936 – Encerramento: 16.ago.1936

Abertura Oficial: Chanceler Adolf Hitler

Juramento dos Atletas: Rudolf Ismayr

Acendimento da Pira: Fritz Schilgen

Países Participantes: 49

Total de Atletas: 3963 Homens: 3632 – Mulheres: 331

Brasil (Atletas): 94 - Homens: 88 – Mulheres: 6

Esportes: 24 - Eventos: 129

 

Quadro geral de medalhas, os 5 primeiros colocados e o Brasil

Com a Guerra Civil que explodiu na Espanha em abril de 1929, a candidatura de Barcelona, cidade favorita para sediar os Jogos de 1936, enfraqueceu-se e Berlim foi escolhida.

Dois anos depois, Adolf Hitler assumiu o poder e vários países - com os Estados Unidos à frente -, iniciaram uma campanha contra os Jogos em solo alemão.

Ao receber pessoalmente o presidente do COI, Hitler - que logo imaginou o poder da propaganda nazista nos Jogos -, garantiu totais condições democráticas para realização dos Jogos, aceitou não fazer nenhum discurso político na abertura e para dar sinais de tolerância, manteve Theodor Lewald - filho de pai judeu -, no cargo de presidente do Comitê Organizador.

O Reich preparou-se para os Jogos ao mesmo tempo em que se preparava para a guerra, portanto, a organização dos Jogos foi esplendorosa e Berlim superou Los Angeles em todos os sentidos, com trinta milhões de dólares de investimento contra dois e meio de Los Angeles.

A Vila Olímpica com 116 casas de dois pavimentos, para abrigar mais de 4 mil atletas, situada a apenas 10 km do centro, e quase todas as instalações esportivas construídas no complexo de Reichssporfeld, como o Estádio Olímpico para 110.000 pessoas, o recinto para Hipismo com 7.000 lugares, duas piscinas para 28.000 espectadores e um ginásio de 20.000 lugares, foi o local das provas de ginástica, polo aquático e hóquei na grama.

Olimpíada de 1936 - Créditos / Wikimedia Commons

Depois do primeiro grande revezamento da tocha de Olímpia a Berlim, o atleta alemão Fritz Schilgen acendeu a pira olímpica, ponto alto da perfeita cerimônia de abertura - no dia 1º de agosto -, quase uma parada militar, na qual desfilaram 4.066 atletas de 49 países, marcada ainda pelo dirigível Hindenburg, portanto uma grande bandeira olímpica e pelas breves palavras de abertura protocolares pronunciadas por Hitler e pela emocionante presença do grego Spiridon Louis, o primeiro vencedor da Maratona em Atenas.

Berlim 1936 - Créditos / Getty Images

Disputado em quadra de barro, o basquetebol fez sua estreia oficial, enquanto o Handebol jogado na versão de campo foi disputado pela primeira e única vez, para voltar definitivamente em Munique na versão Indoor. Além deles, a Canoagem disputou suas primeiras nove provas olímpicas da história.

No dia 16 de agosto, quando o placar do estádio anunciou Tóquio como a próxima cidade-sede, os Jogos foram encerrados.

 

A medalha de 1936

Frente da medalha de 1936 - Créditos / Wikimedia Commons

Medalha idêntica à medalha de 1928, exceto pela inscrição: “XI. OLYMPIADE BERLIN 1936" (´XI Olimpíadas BERLIM 1936´).

 

Maiores medalhistas

Atleta País Esporte Total Ouro Prata Bronze  
Jesse Owens Estados Unidos Atletismo 4 4 0 0  
               
Rie Mastenbroek  Holanda Natação 4 3 1 0  

 

Destaques

O mito que Hitler não cumprimentou Jesse Owens

Com um programa muito bem elaborado, a primeira prova de atletismo foi o arremesso de peso, na qual o alemão Hans Woelke, marcando 16,20 metros, ganhou a medalha de ouro.

Para satisfação de Hitler, o estádio inteiro gritou Heil! Heil! Heil! A prova - transmitida pelo rádio e, em caráter experimental, pela televisão - criou um clima de orgulho nacional e expectativa de novas vitórias. O policial Woelke foi promovido a tenente por serviços à pátria e recebido pelo Führer que o cumprimentou, bem como a outros vencedores do primeiro dia de provas.

Esse detalhe não foi repetido nos outros dias de competição, dando margem à lenda de que Hitler não recebera Jesse Owens por ser negro.

Como não era protocolar que o Conde-Presidente da Alemanha recebesse os atletas, pois ou recebia todos ou não mais o fazia - e não era possível para Hitler estar todos os dias no estádio -, a decisão foi de não receber mais ninguém.

Entretanto, o que Hitler fez foi evitar estar presente nas vitórias humilhantes de Owens. Apenas em audiências particulares parabenizou os alemães vencedores, usando também o artifício de receber, por exemplo, o finlandês Ilmari Salminen e seus dois compatriotas Arvo Askola e Volmari Iso-Hollo, vencedores dos 10.000 metros, fora do estádio, para não ter que assistir o domínio dos três negros americanos: Cornelius Johnson, David Albritton e Delos Thurber no Salto em Altura.

 

Um grande campeão e herói, Jesse Owens

Jesse Owens em 1936 - Créditos / Getty Images

Em 2 de agosto iniciou-se o “show” de Jesse Owens, negro nascido no Alabama, ao sul dos Estados Unidos, penúltimo de onze filhos, com 1,78 de altura e 72 quilos, próximo de completar 23 anos. Ele transformou-se no “Rei dos Jogos” e, talvez, o maior campeão de todos os tempos, pois marcou 10 segundos na semifinal dos 100 rasos (marca invalidada devido à velocidade do vento a favor), vencendo a final desta prova, na qual resistiu ao ataque do amigo Ralph Metcalfe (que ganhou sua segunda medalha de prata consecutiva na prova).

No dia seguinte, pela manhã, Owens cravou 21.1 segundos nas eliminatória dos 200 metros e venceu o salto em distância, derrotando o alemão Lutz Long.

No terceiro dia, Jesse venceu a final dos 200m com 20.7 segundos - recorde olímpico durante 20 anos -, descansou três dias e fechou a triunfal semana com sua quarta medalha de ouro no Revezamento 4 x 100 rasos.

Tudo isto foi pouco se compararmos com sua performance em 25 de maio de 1935, quando em 75 inigualáveis minutos Jesse bateu os recordes mundiais do salto em distância, 220 jardas, 200 metros, 220 jardas com barreiras e 200 metros com barreiras e igualou nas 100 jardas.

Depois dos Jogos ele tornou-se profissional, sucumbindo à tentação do dinheiro que, infelizmente, não reluziu como esperava. Ele praticamente fez um pouco de tudo: correu contra cavalos em hipódromos das cidades de Miami e Havana, foi bailarino, teve uma orquestra de jazz, jogou nos “Harlen Globetrotters” e voltou ao Atletismo como delegado.

Abriu uma empresa de relações públicas tornando-se um palestrante remunerado. Militou contra o radicalismo racial, escreveu dois livros e, depois de 35 anos fumando um maço de cigarros por dia, morreu de câncer em março de 1980 como o rei de uma única Olimpíada.

 

Performance do americano James “Jesse” Owens

Prova                                                                  Tempo               Distância                Recorde

100 metros rasos                                         10.3

200 metros rasos                                         20.7                   Olímpico

Revezamento 4 x 100m rasos              39.8                   Mundial / Olímpico 

Prova                                  Marca                       Distância             Recorde

Salto em distância      8,06 m                       Olímpico

 

 

A grande e olímpica amizade de Jesse Owens e Lutz Long

Jesse Owens e Lutz Long 1936 - Créditos / Wikimedia Commons

Na série eliminatória do salto em distância, aconselhado pelo alemão Lutz Long, Jesse tomou o cuidado de impulsionar-se meio metro antes da tábua de salto, evitando que os juízes queimassem seu salto e classificou-se para a final.

À tarde, na grande final do salto em distância, com a presença de Hitler, houve uma grande disputa entre Jesse e Lutz, que acabaram se tornando grandes amigos.

Na quinta tentativa, com a marca de 7,87 metros, o alemão igualou Jesse na liderança, mas, na sequência, Jesse conseguiu 7,94 metros e chegou para a última e decisiva rodada em primeiro lugar, quando foi beneficiado com o erro de Lutz que queimou o salto.

Com a medalha de ouro já assegurada, Jesse Owens voou e estabeleceu a incrível marca de 8,06 metros, deixando todo o estádio boquiaberto pelo recorde mundial.

 

Hendrika “Rie” Mastenbroek e Ragnhild Hveger

Na natação, seis semanas antes dos Jogos, com o tempo de 1:04.6, a holandesa Willy den Ouden bateu o recorde mundial dos 100m livres, que já durava 20 anos.

Na final olímpica sua compatriota Hendrika “Rie” Mastenbroek levou o ouro numa chegada dramática, batendo Jeanette Campbell (EUA) e Gisela Arendt (ALE), com Willemijntje den Ouden em quarto. Nos seguintes cinco dias de provas Rie ganhou mais duas de ouro e uma de prata.

Nos 400m livres, após a dinamarquesa Ragnhild Hveger liderar até a marca dos 375 metros, Rie venceu depois de um forte sprint.

Entre 1936 e 1953 Ragnhild bateu 42 recordes mundiais e após retirar-se do esporte, em 1945, ela ainda voltaria em 1952 quando foi quinta colocada.

Para Rie, a vida pós-Jogos foi mais dura, pois um acidente de carro matou seu primeiro marido e a partir daí ela trabalharia 14 horas por dia para sustentar os filhos.

No Revezamento 4 x 100 livres, a partir da reação de Willemijntje den Ouden, que era a terceira nadadora, a equipe holandesa chegou à liderança e Rie consolidou a vitória.

 

Maria Lenk, a pioneira brasileira

Maria Lenk - Créditos / Wikimedia Commons

 

Nos 200 metros peito, a brasileira Maria Lenk foi eliminada nas semifinais.

Contudo sua contribuição para a evolução do nado borboleta foi muito grande por ter sido ela a primeira mulher a utilizá-lo nesta prova - vencida em Berlim pela japonesa Hideko Maehata - e quem desenvolveu a braçada iniciando-se acima da superfície da água, igual à utilizada atualmente no nado borboleta.

Ela é uma verdadeira lenda viva da Natação brasileira. No auge da sua forma, três anos depois do Jogos de Berlim, bateu os recordes mundiais dos 200 e 400 metros livres (primeira atleta entre mulheres e homens da América do Sul a quebrar um recorde mundial na natação), mas não teve sorte pois as Olimpíadas seguintes foram canceladas por causa da Segunda Guerra Mundial.

 

O Início da Segunda Dinastia: Estados Unidos no basquete

Foto do time de basquete americano em 1936 - Créditos / Divulgação USA Basketball

 

O primeiro Torneio Olímpico de Basquetebol foi realizado em quadras externas, as mesmas utilizadas para as partidas de Tênis, com piso de argila e areia.

A seleção americana, que era formada na sua maioria por jogadores da equipe da Universal Pictures, vencedora do torneio pré-olímpico de seu país, quase ficou sem três dos seus jogadores porque tinham mais de 1,90 de altura. Exigência no mínimo absurda, retirada a tempo pela FIBA antes do início do torneio.

Na véspera da final uma forte chuva deixou a quadra toda enlameada e os jogadores tiveram enormes dificuldades, principal causa para o baixo placar da partida entre Estados Unidos, 19, e Canadá, 8, com o jovem pivô americano Joe Fortenberry marcando 8 pontos.

Os americanos venceram todos os torneios de basquete masculino de 1936 até 1972.

 

Os grandes braços

Das sete provas do remo, os alemães venceram cinco. As exceções foram no bouble sculls, com os britânicos Jack Beresford e Leslie Southwood que, derrotados pelos alemães Willy Kaidel e Joachim Pirsch na primeira eliminatória, classificaram-se na repescagem.

Na final o barco alemão liderou até a marca dos 1.800 metros, quando os britânicos ficaram lado a lado por 100 metros e passaram à frente nos últimos 100, vencendo a prova.

Aos 37 anos, Jack Beresford, que competiu em cinco Olimpíadas, ganhou uma medalha em cada edição.

Considerando que ele e Southwood ganharam a prova no “Challenge Cup” em Henley, 1939, é possível afirmar que Beresford conquistaria a sexta medalha não fosse a Segunda Guerra Mundial.

Tricampeonato do britânico Jack Beresford

Ano              Prova                             Tempo

1924     single sculls                      8:02.5

1932     quatro sem patrão       7:13.96

1936     double sculls                    8:22.51

 

Striptease: Helen Stephen

Quando Stanislawa Walasiewicz - as regras do COI permitiram que ela mesma naturalizada americana, disputar os Jogos pela Polônia - foi derrotada pela robusta Helen Stephens dos Estados Unidos, nos 100 metros, iniciou-se a maior confusão a respeito da feminilidade da americana, com a polonesa alegando que apenas um homem poderia vencê-la e o Comitê Polonês apresentando uma denúncia na qual exigia que Helen mostrasse seu sexo (a intenção dos poloneses era a de que, por pudor ou culpa, a americana se negasse a fazê-lo).

No entanto, sem nenhum problema, Helen despiu-se e provou ser mulher, em cena inserida no excelente filme “Os Deuses dos Estádios”, de Leni Riefenstahl, primeira película sobre as Olimpíadas.

 

Acima das Deficiências Físicas: Olivér Halassy

Olivér Halassy - Créditos / Wikimedia Commons

 

Após o empate de húngaros e alemães na primeira colocação com 8 vitórias e 1 empate cada, a Hungria, que assinalou 57 gols e sofreu apenas 5, com um saldo de 52 gols - 6 a mais que os alemães - sagrou-se bicampeã.

Um dos destaques da equipe húngara foi Olivér Halassy. Devido a um acidente automobilístico, aos 11 anos de idade ele teve sua perna direita amputada, mas, superando esta deficiência, disputou três Olimpíadas ganhando duas medalhas de ouro e uma de prata.

Em 1946, aos 37 anos, Halassy foi assassinado numa rua de Budapeste.


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