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O retrato do Futebol Americano no Brasil

Como o esporte vem se desenvolvendo no país que a bola redonda faz mais sucesso que a oval

Marcello Sapio Publicado em 25/08/2019, às 19h39

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- Palmeiras Locomotivs (Crédito: Marcello Sapio/Sportbuzz)

A gente chega lá pelas nove horas, se quiser chegar nesse horário e trocar um papo com a equipe antes do treino, fique à vontade”, disse o diretor de marketing do Palmeiras Locomotives, Fábio, sobre os treinos da equipe de futebol americano.

Na iminência de mais uma temporada da NFL, a Liga de futebol americano dos Estados Unidos, com times, públicos e cifras astronômicas em tudo que envolve o torneio, muito pouco se sabe como é o desenvolvimento do esporte em terras nacionais.

Aqui no Brasil, é observado uma realidade muito diferente da do americano, com a maioria dos clubes atuando de modo amador e tendo o esporte como um hobby e não como a principal ocupação.

Em uma conversa com o Diretor geral de Futebol Americano do Palmeiras Locomotives, Raphael Nascimento, ele contou até que ponto funciona a parceria com o tradicional clube brasileiro: “Nossa parceria é apenas no uso do nome ‘Palmeiras’, mas a maioria exorbitante dos gastos sai do bolso dos atletas. É uma realidade do nosso esporte aqui no Brasil”.

Ainda sobre os gastos, Raphael ainda relatou quando foram disputar um campeonato em outro estado: “Teve uma vez que fomos jogar lá no Rio. Dividimos um ônibus entre os atletas, no total foi 5 mil reais. Temos agora uma partida em Nova Serrano, vai ser R$7 mil e vai sair do nosso bolso”, completou.

O time de futebol americano do Palmeiras treina do Clube Tietê, localizado na zona norte de São Paulo. O local é um campo público onde se treinam diversas modalidades, mas o esporte da bola oval predomina.

No horário do treino do time principal, havia outros três clubes de futebol americano treinando, com o espaço para a realização das atividades sendo demarcada com fitas e com cones.

O Quarterback do Palmeiras Locomotives, Lucas Tezinho, não vê problema em treinar em um local público e contou seu relato dentro do esporte: “Tem umas pessoas aqui dentro do time que não gosta muito (de treinar alí), quer um campo oficial, bonitinho. Já eu não tenho do que reclamar, aqui a grama é sintética, sem nenhum buraco, tudo reto. Já joguei em ‘areião’ porque não tinha campo para treinar, então não vejo problema”, disse ele.

A parte inicial do treino é dedicada ao estudo do adversário. As equipes de defesa e ataque se dividiram para estudar o time.

Os atacantes tinham um notebook para mostrar vídeos do adversário, porém, por conta do Sol, tiveram que mudar de posição algumas vezes até que fosse possível todos visualizarem a imagem.

É um sistema colaborativo. A gente disponibiliza os vídeos. O ideal é que todos assistam, comentem o que pode ser feito, qual é o ponto forte da outa equipe, é bem aberto para que todos tenham voz”, disse Lucas.

Palmeiras Locomotives (Crédito: Marcello Sapio/ Sportbuzz)

 

A Comissão técnica do Palmeiras é formada por três pessoas, que são pagas pelos jogadores e por uma ajuda de custo que o clube ajuda. Mas se alternam entre trabalhos paralelos, como todos os jogadores.

Raphael, por exemplo, divide as responsabilidades de jogador e Diretor Geral trabalhando com seguros de vida. Ele brinca com a diversidade de ocupações no time: “Aqui tem eletricista, técnico de informática. Quando alguém tem um problema, a gente manda no grupo do time porque sabemos que um vai saber resolver”.

Sobre os custos e os equipamentos, Raphael conta que não recebem qualquer auxílio para materiais e equipamentos. Para a aquisição, eles buscam ajudas de patrocinadores, como relatou com o novo uniforme do time: “Conseguimos esse ano um patrocinador que vai fazer o nosso uniforme e dar uma quantidade extra para vendermos. Uma quantia volta para eles, mas já é um dinheiro que entra.

As categorias de base também é uma preocupação constante. Ele contou que o Palmeiras possui as categorias de base de Flag, uma variação do esporte, e o “equipado”, como chamam o futebol americano, em times masculino e feminino, mas vê a dificuldade de manter as equipes: “Usamos bastante a base do flag e do equipado para compor o time principal. A maioria exorbitante daqui veio da base. Já o feminino é complicado por ser um esporte masculinizado, por isso não tem muita procura, mas tentamos sempre manter um time competitivo.

Palmeiras Locomotives (Crédito: Marcello Sapio/ Sportbuzz) 

 

Esse cenário é comum na maioria dos clubes de futebol americano no Brasil, tendo poucas equipes que se destoam e profissionalizam suas respectivas equipes, como o caso do Atlético-MG.

Comparado no âmbito municipal, não é muito diferente com o Corinthians Steamrollers, que segue em condições similares ao Locomotives, a principal diferença é que o clube de futebol americano alvinegro tem o Parque São Jorge para treinar.

O quarterback do Corinthians Steamroller, Victor de Almeida, 18, relatou que no time, um dos mais tradicionais da cidade de São Paulo, contou que a falta de estrutura é um dos principais pontos a serem melhorados no esporte.

Segundo Victor, a falta de apoio, principalmente da comunidade e das empresas, atrapalha o crescimento, já que dificultam o time de investir no esporte.

Ele ainda cita a profissionalização das equipes, que seria um grande passo para o Brasil possuir ligas mais competitivas e ter jogadores mais qualificados, tendo em vista que a maioria tem o esporte como um hobby.

Corinthians Steamrollers (Crédito: Reprodução Instagram)

 

Outro jogador que vai no mesmo pensamento de Victor é o Widereceiver da Portuguesa FA, Marcos Vinícius, ou “Seya”, como é conhecido pelo time.

Seya pratica o esporte desde 2015 no time do Canindé, por onde passou pelo Flag, até chegar no equipado, por onde joga atualmente.

Ele relatou, também, as condições precárias de treinamento com um dos principais obstáculos para o esporte. Porém, vê com otimismo o cenário, citando o Brasil como uma das potencias, disputando com alguns países da Europa e o México.

Vinícius evitou comparar o nível da NFL com o futebol americano no Brasil: “São mundos diferentes, é muito difícil comparar porque lá tem uma estrutura infinitamente maior que a nossa. Isso reflete em tudo.”.

A partir disso, indagado sobre o que poderia ser feito para atrair mais adeptos ao esporte, Vinícius foi cirúrgico ao falar: “Precisamos de divulgação, com mais espaço, mais visibilidade, atrai mais público, mais atletas e com isso entra mais dinheiro.

Seya relata os sistemas que acontecem no México e nos EUA como uma metodologia que poderia ser aplicada no Brasil: “ (México e EUA), os jogadores possuem bolsas de estudos nas faculdades através do esporte, não só pelo Futebol Americano, mas sim no geral. Isso incentiva as pessoas a buscarem o uma prática esportiva para se desenvolver, estando aberto para novos talentos. É um esquema que funciona muito bem na NFL.

Portuguesa FA (Crédito: Reprodução Instagram)

 

O futebol americano, hoje, é um esporte que, para o padrão brasileiro, é caro, custa cerca de 500 reais um equipamento básico, fora as manutenções, locomoção e os gastos da modalidade. O que limita a prática para pessoas com uma classe social mais favorável.

Por outro lado, a modalidade está no Brasil desde 2008, data da primeira partida oficial realizada no Brasil entre clubes, o que, para um esporte que tem 11 anos de existência, o país está e um processo de evolução natural.

Com isso, apesar de todos os problemas que cercam a modalidade, jogadores, técnicos e entusiastas veem um futuro muito animador para o país, que, de jarda em jarda, vai crescendo movido pelo amor ao esporte.