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Entenda um pouco mais sobre as mulheres trans nos esportes femininos

Especialistas no assunto deram seu ponto de vista sobre a regularização das atletas

Lucas Miluzzi e Damaris Andrade Publicado em 02/03/2020, às 18h14 - Atualizado às 19h23

Tifanny Abreu em ação
Tifanny Abreu em ação - Crédito:Orlando Bento/MTC

A regularização das atletas trans nos esportes é um assunto que vem sendo debatido com bastante frequência nos últimos anos e com as Olimpíadas de Tóquio chegando, nada melhor do que entendermos um pouco mais sobre essa questão. 

Para isso, o Sportbuzz entrevistou o Coordenador Médico Seleção Brasileira Feminina Futebol, Nemi Sabeh Junior, além de Bruna Benevides, Sargento da Marinha, e integrante da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, a ANGRA.

A primeira regularização para que houvesse a participação de transexuais nos esportes ocorreu no dia 28 de outubro de 2003, em Estocolmo. A reunião acabou sendo realizada pela Comissão Médica do COI e nela ficou decidido que os transexuais que haviam realizado a transição completa antes da puberdade poderiam competir nas categorias do “gênero com o qual se identificassem”, enquanto aqueles que haviam realizado a transição após a puberdade seriam elegíveis para participação em competições, caso seguissem as seguintes condições:

  • Alterações anatômicas cirúrgicas completas, incluindo alterações da genitália externa e gonadectomia (remoção do ovário ou dos testículos).
  • Reconhecimento legal pelas autoridades oficiais apropriadas do país de origem.
  • Terapia hormonal administrada de forma verificável e por um período de tempo suficiente para minimizar as vantagens relacionadas ao sexo de nascimento nas competições esportivas.

No entanto, depois das Olimpíadas do Rio de Janeiro, o Comitê Olímpico voltou a discutir sobre o tema e fez algumas alterações no regulamento. Entre essas mudanças, o COI determinou que não existe a necessidade de retirada dos órgãos genitais e o processo pode ser feito de maneira hormonal se seguir as seguintes recomendações:

  • Após a atleta declarar que sua identidade de gênero é feminina, esta não pode ser alterada, para fins esportivos, por quatro anos.
  • A atleta deve demonstrar que seu nível total de testosterona tem sido inferior a 10 nmol/L durante, pelo menos, 12 meses antes da primeiracompetição (com a exigência de que qualquer período mais longo seja baseado em uma avaliação caso-a-caso confidencial, supondo-se que 12 meses seria um período de tempo suficiente para minimizar qualquer vantagem em competições femininas).
  • O nível total de testosterona da atleta deve permanecer abaixo de 10 nmol/L durante o período de elegibilidade desejada para competir nacategoria feminina.
  • A conformidade com essas condições pode ser monitorada por testes. No caso de não conformidade, a elegibilidade da atleta para a competição feminina será suspensa por 12 meses.

Homem trans no esporte é a mulher que virou homem, mulher trans no esporte, é o homem que virou mulher. Isso é muito controverso, o COI, em 2016,depois do ciclo olímpico do Rio estipulou uma regra que não precisa fazer mais cirurgias para poder participar dos torneios, apenas com terapia hormonal que é controlada pelo órgãos competentes.", explicou Nemi Sabeh Jr, ortopedista, expert em medicina esportiva, idealizador da ON (centro de evolução corporal) e médico da Seleção Brasileira de Futebol Feminino

 

"É controverso, pois, vou utilizar um exemplo: A mudança do homem para a mulher, ela recebeu testosterona a vida inteira e em um determinado tempo houve a retirada dos hormônios pelo tratamento. Por estímulo da testosterona enquanto ela ainda era um homem  houvesse efetivamente uma adesão maior de testosterona nos músculos e nos ossos ocasionando um grande aumento na força e na resistência dos músculos e isso deixa uma memória passada em relação ao estímulo da testosterona. Eu particularmente acho que isso é uma vantagem e não discordo da mudança na regra, mas é muito controverso.”, continuou      

 

Acredito que as regras criadas pelo Comitê Olímpico devem ser respeitadas. Especialmente quando as regras são baseadas em discussões e pesquisas com especialistas no assunto. Óbvio, que o COI jamais iria baixar regras sem o estudo aprofundado do caso. Enquanto as pessoas estão discutindo a proibição, nós estamos pensando na possibilidade de inclusão, de reconhecer a cidadania das pessoas trans para disputar as modalidades esportivos em pé de igualdade com as outras pessoas. Estamos em um cenário, onde o estado brasileiro, através do Tribunal Federal reconheceu a possibilidade de pessoas trans verificarem suas certidões seus documentos e assentos registrais seja no seu prenome e no seu gênero também. Portanto, com essa documentação eu passo a ser reconhecida pelo estado brasileiro como uma mulher do sexo feminino e consequentemente todos os direitos e as garantias institucionais previstas para as mulheres também são estendidas para as mulheres trans.”, disse Bruna Benevides, que é uma mulher transexual, Sargenta da Marinha, e faz parte da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, a ANGRA.

Umas das grandes responsáveis por reacender está discussão foi Tifanny Abreu. A jogadora fez sua transição sexual quando tinha 29 anos de idade, atualmente, ela joga pelo Sesi-Bauru, e é um dos grandes destaques da equipe. No ano de 2016, a atleta passou por diversos perrengues e chegou até ser proibida de atuar tanto na Liga Nacional como em qualquer outra.

Antes de jogar pela categoria feminina, ela atuou pelo masculino em algumas equipes da Indonésia, Portugal, Espanha, França, Holanda e Bélgica. Foi JTV Dero Zele-Berlare, da segunda divisão belga, que ela resolveu concluir a sua transição.

 
 
 
 
 
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O caso de Tifanny Abreu, do vôlei, não é o primeiro de uma pessoa transexual no esporte. Renée Richards foi a primeira transexual a disputar um torneio profissional de tênis. A americana chegou a competir por sua faculdade, mas depois desistiu e seguiu carreira na medicina. 

Quando mais velha, em 1975, aos 40 anos, fez uma cirurgia de adequação sexual e voltou a disputar torneios profissionais de tênis. Seu principal resultado foi a final do torneio de duplas do Aberto dos Estados Unidos em 1977, e sua melhor posição no ranking mundial, 20º lugar.

Acredito que por trás de toda essa discussão, a transfobia se faz presente. Principalmente, porque ela é estrutural e estruturante na nossa sociedade. Não falo, exclusivamente do caso da Tifanny, ele é um demarcador dessa disputa, mas não é sobre ela que estamos falando, estamos falando sobre diversos outros corpos que não são e não podem ser balizados poder determinismo biológico. Essa divisão foi proposta para manter as mulheres em lugar de subalternidade, pessoas que estudam anatomia  e fisiologia, que são especialistas em esporte podem atestar que os corpos se vão se relacionar com o meio de acordo com os estímulos que eles vão receber. Então qual é a mulher que recebe estímulos para desempenhar o alto rendimento em qualquer tipo de modalidade desde a sua infância? Infelizmente, é uma sociedade que diz que não pode levantar peso e que mulheres não podem estar fazendo determinadas funções, pois seu corpo seria inferior . Isso é um processo de machismo que delimita o espaço que mulheres podem alcançar.", questionou

"Se Fizermos esse paralelo no esporte, a gente coloca mulheres que desempenham alto rendimento, mas quando falamos de mulheres trans, nos baseamos em uma formatação que é transfóbica e as pessoas citam a musculatura ,os hormônios como desculpa. E aí nós vemos que não se sustenta, pois ignoram o processo de hormonização  e os efeitos colaterais que eles promovem no corpo das mulheres trans. De certa forma,  pegar um corpo de uma mulher cisgênera que não passa pir um processo como esse e é comparado com uma mulher trans que tem como necessidade a possibilidade e exigência para fazer terapia de reposição hormonal e passar por diversas cirurgias que acabam comprometendo os tecidos musculares e próprio rendimento da pessoa por si só nó vemos em que pé de desigualdade e são as mulheres trans. Elas vão passar por outros processos que geram um maior cansaço e com isso a possibilidade de uma menor explosão. A própria Tifanny é um exemplo disso e alegou que perdeu força e velocidade. è muito importante que esse discurso não fique no âmbito do achismo.”, afirmou       

Nemi Sabeh Jr entende que a pessoa transexual tem uma vantagem em relação à pessoa cisgênero. Uma pessoa cis é aquela que se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer.

É um tema tão discutido, pois existe a memória de um atleta que é uma mulher trans, uma memória da testosterona antiga. É um processo de adesão da testosterona, do aumento muscular e da massa óssea de acordo com muitos anos. Por exemplo uma mulher trans com 23 anos de idade fez o processo de adesão de mudança do sexo, mas ela recebeu até os 22 anos o testosterona e isso desenvolve um outro biotipo corporal relacionado a tamanho dos ossos e músculos. Na minha opinião isso influencia sim e dá certa vantagem.”, argumentou 

A forma do corpo é uma memória antiga em relação ao que ele foi submetido aos hormônios na sua infância e ´muito controverso o assunto. Eu não sou contra a participação dessas mulheres, porém nós temos que estudar cada vez mais a possibilidade de inclusão, talvez, de um trans dentro da área de esporte, porém determinando como um atleta que não se beneficia do uso do hormônio para melhora de sua performance e sim, apenas por causa, de uma mudança de sexo. Acho que a inclusão de todos dentro da área dos esporte é muito boa , mas precisamos ver como fazer isso, estudos devem ser realizados sobre isso.”, concluiu 

No entanto, existem diversos especialistas que são contra a participação de atletas transexuais em competições. Inclusive, no final do ano passado, em São Paulo, foi aprovado um projeto de lei que impedia a participação de transexuais em clubes e torneios paulistas oficiais. 

Já aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o PL 346/2019 estabelece que "a fim de garantir a equidade nas competições, o sexo biológico será o único critério para definição do gênero de competidores em partidas esportivas em qualquer modalidade". O que vedaria a atuação de trans em equipes do sexo oposto ao nascimento. A proposta estipula ainda multa de 50 salários mínimos para a federação, entidade ou clube de desporto que descumprir a lei, que começaria a vigorar a partir de 180 dias de sua publicação.

A medida gerou diversas reações e a própria Tifanny tentou derrubar a liminar, além de diversos protestos realizados na frente da ALESP, local onde houve a votação para a aprovação da PL, criado por Altair de Morais, do Republicanos.

Ana Paula Henkel, ex-jogadora de vôlei, escreveu uma carta aberta agradecendo ao COI pelas diversas participações durante sua carreira em Olimpíadas e contestou a participação de atletas trans em sua categoria. 

 

É com respeito mas com grande preocupação que escrevo às entidades responsáveis pelo esporte sobre a ameaça de total desvirtuação das competições femininas que ocorre atualmente com a aceitação de atletas que nasceram homens, que desenvolveram musculatura, ossos, capacidade pulmonar e cardíaca como homens, em modalidades criadas e formatadas especificamente para mulheres. Se alguém tem que ir a público e pagar um preço em nome da verdade, do bom senso e dos fatos, estou disposta a arcar com as consequências. O espaço conquistado de maneira íntegra por mulheres no esporte está em jogo.”, escreveu


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