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Colunistas / José Renato / FUTEBOL CATARINENSE

Em tempos de Regime Militar, peripécias no futebol catarinense

Edições dos campeonatos brasileiros disputados durante a década de 1970 entraram para a história como aquelas que contaram com o maior número de equipes participantes

Redação Publicado em 16/07/2022, às 10h00

Em tempos de Regime Militar, peripécias no futebol catarinense - Leandro Boeira / Avaí FC / Flickr
Em tempos de Regime Militar, peripécias no futebol catarinense - Leandro Boeira / Avaí FC / Flickr

As edições dos campeonatos brasileiros disputados durante a década de 1970 entraram para a história como aquelas que contaram com o maior número de equipes participantes. Para se ter uma ideia, a edição de 1979 contou com 94 times, que durante pouco mais de três meses, se confrontaram pelo título de campeão nacional, feito que acabou sendo conquistado, de forma invicta, pelo Internacional de Porto Alegre

Certamente havia muitas motivações para a participação de tantas equipes e a maior delas, sem dúvida, dizia respeito ao interesse do regime militar, em vigor no país, que considerava o futebol como um importante meio de controlar os anseios da população. A Arena, Aliança Renovadora Nacional, era o partido governista e contou muito com a regra tácita – “Onde a Arena vai mal, mais um time no Nacional; onde a Arena vai bem, também” - para se dar bem nas eleições legislativas daqueles tempos. 

Em tempos de Regime Militar, peripécias no futebol catarinense (Crédito: Arquivo)

Sendo assim, sempre que a Confederação Brasileira de Desportos, a CBD, atual CBF, era “orientada” para atribuir uma nova vaga no campeonato nacional para determinado estado, a federação local recebia a incumbência de indicar qual equipe iria disputa-lo. Os critérios escolhidos para esta indicação, no entanto, nem sempre eram técnicos. Não era raro que o presidente de federação resolvesse indicar o time do qual era torcedor. Eventualmente, havia situações em que acertos de naturezas diversas eram feitos de modo a acomodar os interesses de todos, ou quase, os envolvidos.

Um exemplo muito claro disso tudo acostumava acontecer em Santa Catarina. O campeonato brasileiro de 1977 tinha data de inicio marcado para 15 de outubro e contaria com a participação de 62 equipes. O estado seria representado por duas equipes e o campeonato catarinense de 1977 que começara em março tinha data de termino previsto para o começo do mês de outubro. Daria tempo de indicar o campeão estadual para o campeonato brasileiro. A Federação Catarinense de Futebol era presidida por José Elias Giuliari.

Nascido em Joinville, Giuliari tinha estreita ligação com o futebol de sua cidade e era declarado, ardoroso torcedor do Joinville Esporte Clube, o JEC. Campeão estadual do ano anterior, após ter começado bem a competição o JEC sofreu algumas derrotas inesperadas e acabou saindo da briga pelo título de 1977. 

Atento e preocupado, Giuliari resolveu antecipar a decisão relativa a definição de quem seria o representante do estado. A escolha recaiu sobre o seu Joinville, sob o argumento dele ter sido campeão catarinense em 1976, cerca de um ano atrás, em 3 de outubro de 1976. Além disso, para apaziguar os ânimos da maioria dos torcedores, definiu que a outra vaga seria disputada entre as duas equipes mais populares do estado, Avaí e Figueirense, em uma melhor de três partidas. 

Paradoxalmente, o campeão catarinense de 1977 foi a Chapecoense, que sequer foi considerada para a disputa do Brasileirão daquele ano. No ano seguinte, Giuliari se superou. Após o Avaí desistir do campeonato, por se achar prejudicado pela arbitragem, o Joinville foi considerado campeão estadual apesar de ter jogado uma partida a mais que a Chapecoense, que não tinha enfrentado justamente o Avaí, que abandonara a competição.

Em tempos de Regime Militar, peripécias no futebol catarinense (Crédito: Arquivo)
Em tempos de Regime Militar, peripécias no futebol catarinense (Crédito: Arquivo)

Uma vez somados os pontos deste jogo, a equipe de Chapecó tomaria a frente no campeonato e ficaria com o título catarinense. Segundo a imprensa da época, Giuliari se reuniu com três funcionários da federação e os perguntou: quem merece ser campeão? O Joinville. E assim foi.

Quanto aos confrontos entre Avaí e Figueirense, os jogos foram realizados no estádio Orlando Scarpelli. Após vencer a primeira partida por 1 a 0 e empatar a segunda por 1 gol, o Avaí precisava apenas de um novo empate no terceiro jogo, marcado para o dia 13 de setembro, que conquistaria a vaga. 

Considerado favorito, o técnico do Avaí, Emílson Peçanha resolveu isolar seus atletas na concentração localizada próxima a praia de Canasvieiras, e para aliviar a pressão de suas cabeças, evitar o assunto futebol. Após um animado almoço, Peçanha se dirigiu aos jogadores e falou que estava com vontade de comer sabiá frito e que ofereceria Cr$ 20,00 por cada um deles que fosse trazido para o jantar. Não demorou muito para que dois atletas, Lico e Almir aparecessem com uma espingarda de ar comprimido e partissem para o matagal, gesto que logo foi repetido pelos demais atletas.

No dia seguinte, os jornais de Florianópolis publicaram fotos dos jogadores empunhando as espingardas a procura dos pobres sabiás. Não demorou muito para que dezenas de denuncias chegassem ao IBDF, Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, contra os atletas por prática ilegal. No entanto, nada aconteceu. Em campo, o empate por um gol classificou o Avaí para o campeonato brasileiro de 1977. 

Quanto a Giuliari, continuou como presidente da federação catarinense, cargo que assumira em 1970, até 1983. Coincidência, ou não, seu time do coração, o Joinville, fundado em 1976, conquistou 6 dos 7 campeonatos estaduais disputados durante sua gestão.


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