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“Colocaram 77 vidas em um avião que estava condenado a cair”, diz presidente da Associação dos Familiares do Voo da Chapecoense

Tragédia da Chapecoense completa três anos nesta sexta-feira, 29

Pedro Ungheria Publicado em 29/11/2019, às 06h03

Tragédia completa três anos nesta sexta-feira, 29
Tragédia completa três anos nesta sexta-feira, 29 - GettyImages

Há exatos três anos acontecia uma das maiores tragédias da história do futebol. Na madrugada daquela terça-feira, 29 de novembro de 2016, enquanto alguns sonhos foram interrompidos, outros pesadelos começaram a tomar conta da realidade de 71 famílias.

Vivendo um dos momentos mais expressivos de toda sua história, a Chapecoense embarcava para a Colômbia, onde enfrentaria o Atlético Nacional pela finalíssima da Copa Sul-Americana 2016.

Após uma classificação histórica contra o San Lorenzo, da Argentina, que deixou todos os presentes na Arena Condá em estado de êxtase, a delegação do clube de Chapecó, convidados e jornalistas embarcaram para escrever mais um capítulo na história da equipe fundada no dia 10 de maio de 1973.

O voo fretado pelo Verdão não chegou ao destino final, o Aeroporto Internacional José Maria Cordóva, na Colômbia. Momentos antes de desembarcar em Rionegro, cidade na qual se encontra campo de aviação que era o destino final do voo, a aeronave 2933 da LaMia caiu em La Unión, já na territórios colombianos, devido à falta de combustível. 

Acidente da Chapecoense completa três anos nesta sexta-feira, 29 (GettyImages)

 

Ao se depararem com a maior tragédia da história do jornalismo brasileiro e de uma delegação esportiva, devido ao número de mortos, as famílias passaram a se unir e buscar soluções para as questões que surgiram devido o acidente.

Buscando dar voz para os parentes das vítimas, Fabienne Belle e Mara Paiva criaram a AFAVC (Associação dos Familiares do Voo da Chapecoense). "A associação surgiu de uma indignação muito grande, ela é produto de uma dor que queríamos dar voz. Trata-se da revolta das famílias pela forma com que tudo aconteceu e que ela poderia ter sido evitada", disse Mara. 

Para a vice-presidente, a ideia foi organizar a busca por justiça: "Vozes isoladas não conseguiriam ter uma repercussão importante, então nós resolvemos começar a falar em nosso nome e em nome das famílias”

Já para Fabienne, presidente da organização, a criação da associação foi uma necessidade, afinal, todos queriam buscar respostas para os reais acontecimentos: "Eu entendi que o acidente não tinha acontecido no minuto final quando o piloto disse que não tinha mais combustível na aeronave", disse a mulher do fisiologista Luiz César, uma das vítimas fatais do acidente. 

Atualmente, cerca de 30 famílias fazem parte da associação, Mara afirmou que parte destas estão passando por situações complicadas, tanto financeiras quanto psicológicas. "40% das famílias estão em uma situação bastante delicada em termo financeiro. Posso dizer que 85%, se não a totalidade, ainda estão tentando elaborar essa questão emocional".

Completando o raciocínio, Fabienne deixou claro que alguns acordos chegaram a acontecer entre os familiares das vítimas e as partes envolvidas, mas, mesmo assim a situação não é das melhores: “Hoje em dia infelizmente nós temos grandes famílias que necessitam de uma solução, porque são três anos e nenhumas delas recebeu nenhum tipo de indenização por causa deste acidente".

Mara e Fabienne ainda afirmaram que a Associação tem como propósito principal mostrar que a falta de combustível não teria sido o motivo principal da queda da aeronave: “Ficou claro que antes do avião ficar sem combustível, ele não poderia ter saído do solo, porque essa companhia aérea não tinha seguro para essa viagem, havia uma clausula de exclusão territorial, então essa aeronave não poderia pousar no território da Colômbia", disse Mara.

De acordo com os trabalhos realizados pela associação nos últimos três anos , as profissionais esclareceram que antes mesmo do avião decolar, muitas questões, como seguro de viagem, por exemplo, estavam em aberto, o que para elas pode ser definido como uma série de negligências: "Todas as pessoas que entraram naquele avião, eles foram sem saber que se houvesse acidente eles não teriam seguro", pontuou Mara.

RELAÇÃO COM A CHAPECOENSE

Acidente da Chapecoense completa três anos nesta sexta-feira, 29 (GettyImages)

 

“A relação das famílias com a Chapecoense vai sempre marcada pela tragédia infelizmente. Nós sabemos que quando eles assinaram as má escolhas das companhias aéreas, eles acabaram colocando 77 vidas dentro de um avião que estava condenado a cair”, foi assim que a responsável pela AFAV-C começou a explicar a relação entre as famílias e a Chapecoense.

As mulheres de duas das vítimas, Mário Sérgio e Luiz Cézar, falaram um pouco de como é, atualmente, o contato entre ambas as partes. Além de um acordo inicial que foi proposto logo após o acidente,  de acordo com Mara, existe um outro termo, a qual o clube de Chapecó assume ter alguns tipos de obrigações com as famílias.

"Foi oferecido um fundo monetário que algumas famílias foram obrigadas a aceitar, por causa de uma grande necessidade, mas, consequentemente obrigadas a abrir mão dos direitos delas, então não podem processar, não podem pedir indenização de ninguém, porque abriram mão dos direitos”, falou a presidente.

Indo um pouco mais além sobre a documentação, Fabienne afirmou que o outro contrato em questão se trata de um Termo de Ajuste de Conduta, onde a Diretoria deixa claro que todas as ações que serão feitas envolvendo o acidente deverão ser consultadas com as famílias das vítimas. 

“A Associação trabalhou muito com a Chapecoense para que entendessem que tinham uma responsabilidade social com essas famílias e que precisavam acolher de uma forma mais adequada, pois vinham trabalhando com o marketing da tragédia. Depois de que assinamos o Termo de Ajuste de Conduta eles finalmente entenderam que quem mais perdeu com o acidente foram as famílias", disse Fabienne.

*O termo em questão se trata de um documento o qual foram pontuados os deveres, obrigações e responsabilidades de cada uma das partes, onde a Instituição de Futebol entendeu que tudo que fizessem, relacionado ao acidente, eles precisariam consultar as famílias.

REFLEXÃO

Acidente da Chapecoense completa três anos nesta sexta-feira, 29 (GettyImages)

 

Visando a união das famílias como algo fundamental neste processo, as representantes da Associação, Fabienne e Mara disseram que nestes três anos tiveram que lidar com muitos desafios: “Nós tivemos muitos altos e baixos, uma coisa muito difícil, são 3 anos, eu vou ser sincera pessoalmente, eu ainda não consegui superar, a dor da perda que eu tive”, revelou a presidente.

Ainda no assunto, a responsável pela Associação deixou claro que as vitórias conquistadas nestes últimos anos foram importantíssimas para os membros tivessem fôlego para seguir em frente.  

“Isso é uma grande luta que está longe de acabar, e nós precisamos muito de apoio para que o mundo continue enxergando esse acidente, não como um acidente, mas como uma negligência, 64 brasileiros foram negligenciados. A nossa luta é por justiça, se a justiça for feita, e as autoridades enxergar, e apontar essas negligências, falar (sim, vocês erraram!), a justiça vai prevalecer, finalizou Fabienne.

A reportagem SportBuzz entrou em contato com a assessoria da Chapecoense, que nos enviou o seguinte comunicado:

“A Chapecoense realizou acordos nas demandas trabalhistas que atingem 93% dos valores cobrados. Juntamente com a AFAV-C, o clube firmou um protocolo de intenções e com a ABRAVIC possui um convênio para assistência aos familiares. Em conjunto, o clube e as associações traçam estratégias, realizam compartilhamento de documentos e de ações judiciais.
A relação entre os familiares e o clube é boa. Todas as medidas realizadas entre as partes são compartilhadas para traçar as melhores estratégias. O contato é diário e todos estão lutando pelo mesmo objetivo”.


 

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